Chá de Letras #79

"A Lanterna das Memórias Perdidas" - Sanaka Hiiragi


Oi oi, gente! Tudo bem?

Eis uma leitura que me despertou sentimentos adormecidos, dentro da empatia, dor, memória...


Hirasaka nos guia em sua sala de revelação de fotos, espaço que reside entre a vida e a morte. Na história, todos que acabam de falecer surgem nesta sala - alguns demoram mais à aceitar que outros -, e Hirasaka os entrega um bolo de fotos, cada uma representando um dia de suas vidas. Ali, a pessoa falecida deve escolher algumas que melhor representem cada ano, porém sempre há uma faltante e/ou com algum 'defeito', logo Hirasaka os convida para uma última viagem à vida, em que esse último desafio é se ver viver. Ele logo pede para que a pessoa da vez escolha uma câmera para ser ela a registrar aquele momento no tempo novamente, e as leva para uma viagem até o local e data da foto escolhida.
Mas eles acabam não vendo apenas o momento em si, como também toda a bagagem emocional que carrega, Hirasaka descobre as pessoas por trás de suas próprias histórias, já que dessa vez, assim como ele e o redor, a pessoa também está vendo a vida de uma perspectiva obervadora. Ao final de cada viagem, enfim chega o momento da foto, é quando a falecida pode tirá-la usando a câmera escolhida.
Ao retornarem ao estúdio fotográfico Hirasaka trabalha na revelação da foto, pois é ideia é juntá-la com as outras e criar um caleidoscópio, para quando for a hora, a pessoa assista a sua vida toda em frames antes de partir - muito daquilo que se prega sobre ver a vida passar em 1 segundo antes de morr3r.

Hirasaka conhece cada uma delas pouco tempo antes, quando o entregador bate a sua porta para deixar as fotográfias. Ali ele descobre, dependendo do tamanho do bolo de fotos, se a pessoa muito ou pouco viveu. Mas o curioso é que nada sabe sobre si mesmo. Hirasaka só possui uma foto de sua vida, ainda quando criança, ele não sabe como viveu ou se viveu, até mais, não sabe como foi parar ali e porque.

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O livro é dividido em 3 partes, por nos contar sobre 3 pessoas: uma idosa carinhosa, um homem de meia idade perigoso e uma criança silenciada. A primeira é Hatsue, uma anciã com mais de 90 anos vividos, sua história se volta à um passado distante, quando em sua juventude decidiu ser professora de crianças. Não lhe pagavam bem, enfrentou diversos desafios sociais, médicos e de aceitação, mas fez a diferença naquele lugar. A segunda é Waniguchi, um membro da Yakuza de quarenta anos, que admite ter feito muito do ruim em vida, sua visão era fria, mas sua história revela alguém que acolhe. Já a terceira, Mitsuro, uma criança vítima de maus tratos e tortur4 dentro da própria família.


A história vai muito além dessa questão de vida ou morte, ela trabalha nas consequências. Pelo menos para mim, trouxe perguntas como: E se eu pudesse escolher momentos para representar cada mês vivido? E cada ano? Qual seria a última coisa que me faria lembrar de ter vivido em mim? Se eu fosse me observar de fora, nesses momentos, estaria satisfeita com minhas escolhas? Como eu me veria?
Isso são questões que ficam, porém, mais do que isso, também enxergamos o outro. É sensível notar como as pessoas veem a si próprias, qual propósito enxergam em si ou a falta dele. Quais pessoas marcaram e como, também, o que deixaram de viver por não terem tido direito de escolha.
As histórias nos tocam cada uma de sua maneira, é interessante ver como as bagagens de cada uma afeta como enxergam e aceitam as situações da vida. Um livro que não me ganhou muito na escrita, mas sim em reflexão e sensibilidade ao retratar cenários e personagens com complexidades distintas, vivendo um mesmo drama - que continua um mistério em nossas mentes.

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Q U O T E S:

"(...) por mais poderosa ou rica que seja a pessoa, tudo que ela possui ao chegar aqui são apenas recordações."

"O meu livro de gravuras preferido e a latinha que eu guardava com tanto zelo... haviam escapado por completo da minha me-mória. Se eu não me lembrasse deles, seria como se não tivessem existido. (...)"

"Enquanto juntos contemplavam o rio, um barco desceu correnteza abaixo. Em seu rastro, as ondas desenhavam linhas que cintilavam, iluminadas pelo sol poente. (...)"

"O caleidoscópio continuou a girar. Houve momentos inacreditáveis em que tudo dava certo, e outros em que nada do que fazia funcionava. Houve coisas que não fazia questão de se lembrar, assim como experiências maravilhosas que lhe confortavam a alma toda vez que se lembrava delas. (...)"

"Hatsue percebeu que se tornara invisível. (...)"

"Seja como for, refletiu, como seria voltar ao passado e ver a si mesmo? Significava que um outro eu ainda estaria vivo nesse momento. (...)"

"Pela quantidade de fotos, deve ser uma criança (...)"

"Olhando bem, Hirasaka encontrou um cartaz explicativo, segundo o qual, se você gritasse com a mão sobre a pedra e o eco retornasse, seu pedido seria atendido. Era por isso que aquelas crianças gritavam o que queriam ser no futuro. Talvez pelo fato de todos tocarem num mesmo local, só ali a pedra parecia mais lustrosa. Quantos sonhos não teriam sido gritados aqui, pensou. (...)"

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