Chá de Letras #81
"O Azul Antes do Preto" - Vinícius de Silva e Souza
Este gênero já muito habita minha mente há anos, acho lindo a complexidade nos tons sutis das situações diárias, e o que muito representam, falam e sentem. Aqui não foi diferente.
O livro possui três partes, e não demorei a me deixar levar pela escrita do autor, pelo contrário, a técnica e arte aqui são nítidas e cumprem seu propósito de não apenas comunicar, como também nos fazer sentir e ver as imagens acontecendo, nos enlaçar nas realidades trazidas.
Vinícios transita por temáticas que escancaram o racismo e, não querendo ser repetitiva, de maneira estrutural, pois às vezes é estampado e, em outras, mascarado nas sutilezas (como em "O Esporte Mais Democrático do Mundo", e as atitudes que recebia como resposta por apenas correr na rua em uma tarde num bairro nobre).
Uma das que mais martelou em minha mente, foi a "Árvore", por retratar inícios e fins. Há beleza, desespero, medo, falta. O fato de ligar a árvore aos acontecimentos que medem o tempo, deixou ainda mais sensível o olhar de dentro e fora, como se a própria árvore narrasse.
É uma leitura também, densa. Não so sentido de ser difícil de ler, pelo contrário é bem acessível, mas sim por alguns gatilhos nas histórias trazidas. Vinícius não nos poupa dor, violência e socorro, mas transparece em frases não ditas por filhos bons que nunca chegaram em casa por serem vítima de um "erro". Ou a corrupção em praça píblica.
Este livro mostra a REALIDADE. Revela, de forma até didática, aquilo que muitos não querem enxergar ou poupam desespero. Acredito ser uma leitura importante para se tornar mais consciente do redor, e proteger aqueles que temem.Fico muito feliz também por conhecer o autor, que honra! Parabéns, Vinícius, pela escrita e voz!
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Q U O T E S :
"Poderia ter tantas tantas coisas em sua longa, comum e ordinária vida que estava só começando, mas quando aos dezesseis anos saiu para a casa de um amigo, ansioso para jogar vi-deogame, um tiro da pm veio pelas costas e o atingiu em cheio na nuca e pá, pum!, caiu, morreu, e fim"."Nada comparado ao ipê de seu antigo apartamento. Se parasse para pensar bem, notaria que ele tinha atravessado tantos e tantos anos da sua vida, como um espectador silencioso, observando tudo".
"Meu filho nem viu o tiro que tirou sua vida".
"Tem que parar de matar a gente porque ficar suspenso, Perder emprego, você se arruma, mas e meu filho? Como que arrumo meu filho que perdi? Tiraram a chance do meu filho de sonhar quando deram um tiro nele. 16 anos de idade".
"- Não sei, deve ser algum herói novo. Cê quer assistir?
Ele balança a cabeça e volta-se para o cartaz. O cabelo dele é igual ao seu. Começa a juntar as letras, como aprendeu na escola: pa - pan - té - panterra - pantera - ne - gra."
"Até fechou um pouco os olhos, para sentir tudo aquilo do jeito certo. Abriu quando ouviu a sirene."
"O mundo é bem azul antes de você se sentir negro".
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Fotos no Instagram: @safirasafisaga

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