Chá de Letras #84

"Maria Altamira" - Maria José Silveira


A filha do rio, o Brasil que afogou os seus: Um romance que é também um documento

Um dos livros mais fortes e complexos que já li. Ele começa nos anos 1970 e chega até os dias atuais. Conhecemos Alelí, uma mulher peruana que temia o próprio amor. tudo começou quando em 1970, perdeu sua família num terremoto que fez uma montanha de gelo desabar sobre sua cidade. Dali saiu andando, não por coragem, mas porque ficar seria se afundar junto.

Para sobreviver, toca seu charango, instrumento feito da carapaça de tatu, assim junta dinheiro, e segue. nunca fica. para Alelí, ficar sempre terminou em morte.

Ao chegar ao Brasil, Alelí conhece Manuel Juruna e é levada para a aldeia do Paquiçamba, na Volta Grande do Xingu, os Yudjá, um povo que vivia séculos de violências. e ali, pela primeira vez, Alelí aprende a existir sem fugir. Está prestes a dar à luz quando Manuel é assassinado, por pistoleiros contratados por madeireiros da região. a maldição, ela tinha certeza, era ela mesma.

Alelí chega a Altamira grávida e encontra abrigo com Mãe Chica. quando a filha nasce, o medo de amá-la e assim, destruí-la, a faz ir embora de novo. A menina é batizada Maria Altamira: nome de cidade, nome de rio. e cresce vendo a pressão política para a construção da Usina de Belo Mont, assim vai aos poucos, entendendo a história do seu povo. 

A menina tenta a vida na capital de São Paulo, e ao retornar nota que o povo tinha medo, não mais reconhecia a casa.. Vítimas de uma violência silenciosa (mesmo fazendo barulho). Ela quer vingar a morte de seu pai, sem perder a esperança de também encontrar a mãe.

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A luta contra a usina começou nos anos 1970, ainda na ditadura militar. Durou décadas e foi concluída em 2013, com sangue e resistência, o impacto ambiental e humano foi devastador.

Maria Altamira é um romance de denúncia. não é uma história de final feliz. é Brasil puro. Alélí é uma das personagens que mais me marcou minha trajetória quanto leitora; ela não se sentia digna do amor, do toque, do carinho, não os compreendia. Em suas andanças, ela se guiava por cheiros, que lhe traziam a memória. E não permanecia, achava que ficar trazia morte. 


Uma leitura que vale cada palavra.


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Q U O T E S :


"Sem esperar respostas, começou a desfazer as tranças de Alelí, tão suave no toque como as mãos de Manu, e então, pela terceira vez em sua vida, as lágrimas vazaram como enxurrada."


"A beleza da vida possível. Em que lugar da sua alma ela colocaria isso?"


"O que a fez descer ali, foi o cheiro de Manu Juruna."


"-Es por demasiado amor. Yo traigo la muerte, hija. Es para que tu não mueras."


"A água engolira também a identidade, o mundo, a história e a vida de todos eles."


"Yudjá com medo do rio?, Maria de espantou, (...)"


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Instagram: @safirasafisaga



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