Chá de Letras #87

"Pensar com as mãos" - Marília Garcia

Um livro sobre leituras, de leitora para leitora.


Que difícil falar de um livro que fala sobre tantos outros com maestria. 

Marília Garcia é poeta carioca, nascida em 1979. Desde nova se via na literatura, e em recentes entrevistas, diz ter demorado à encontrar sua voz literária. Mas hoje em dia, ainda mais com essa obra, ouso dizer que Marília espelha a literatura.

É um livro que fala sobre livros, sobre a grande bagagem literária que Marília carrega. Ela frisa a poesia, o diálogo de um autor com outro, viajando por eras, tons, sentires e palavras. É difícil descrever, pois ao mesmo tempo que se é uma aula, muito se sente dentro, como um toque, e muito ainda se descobre.

Além de escrever muito bem, fiquei impressionada com os apontamentos feitos por Marília, ela não passa nada despercebido e possui um tom muito particular de se lembrar e articular cada ponto trazido, é uma dádiva! 

Uma das passagens que mais me chamou atenção, foi o capítulo: "Quem está falando?", em que Maríliacompartilha uma história com sua filha. Ela conta que ao contar histórias para a garota dormir, quando lia o que os personagens diziam, sua filha pergunta: "mamãe, quem está falando?", pois ficava em dúvida se era o personagem ou a própria mãe ali naquele lugar. E isso se é muito válido na literatura, ao atribuir voz aos autores (além de uma indagação válida sobretudo, na própria cena descrita).

Pois bem, já que me faltam palavras para uma total explicação, ei de citar alguns quotes que me enxeram por dentro... mas espelhando também, se é que possível, esta obra, farei breves comentários, fugindo do padrão de quotes visto por aqui.


Q U O T E S :

"Um guarda-florestal francês tinha o curioso hábito de recortar seus livros.

Essa história é contada por Antoine Compagnon em O trabalho da citação. O tal "homem da tesoura" cortava dos livros tudo o que lhe desagradava, deixando apenas as passagens de que ele gostava (...)"

- curioso, porque apesar de ser quase criminoso, ele tende à lucidez.


"O autor é sempre também um leitor em diálogo com livros já lidos, com textos e personagens que ama, com poemas que ficaram colados na memória, com fragmentos e pedaços da cultura que constituem sua própria subjetividade."

- esse eterno diálogo que me fascina, sempre nos tornamos maiores com o que somam, em leitura e apreço.


"Flush vivia no mundo dos cheiros, o amor era cheiro; forma e cor, cheiros; música, cheiro. E vamos sendo levados por um exercício de descrição dos odores e desautomatização do imediato da visão... Ora, nada é mais humano do que a memória desentranhada de outros sentidos (...)"

- me senti aqui, porém na paleta dos sons. como é bom ser e sentir o mundo assim,


"Muitas vezes, sinto como se estivesse dentro de um poema."

- auto...


"O poema é feito de muitos diálogos, (...)"

- ... explicativo.


"Tenho 39 anos.

Meus dentes têm cerca de 7 anos a menos.

Meus seios têm cerca de 12 anos a menos.

Bem mais recentes são meus cabelos e minhas unhas.

Pela manhã como um pão.

Ele tem uma história de 2 dias.

Ao sair do meu apartamento, que tem cerca de 40 anos, vestindo uma calça jeans de 4 anos e uma camiseta de não mais que 3, troco com meu vizinho palavras de cerca de 8oo anos e piso sem querer numa poça com 2 horas de história desfazendo uma imagem que viveu alguns segundos."

- matemática precisa para se entender um poema, lindo.


"(...) pois o país não é de carne é de conceito (...)"

- amém.


Instagram: @safirasafisaga 

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