Chá de Letras #89

"De natura florum" - Clarice Lispector (ilustrações de Elena Odriozola)

Outros modos e meios de Clarice.


Descobri que Clarice sempre quis ser flor, ou ao menos foi o que Marina Colasanti interpretou e nos contou na sinopse da obra. Lispector escrevia uma coluna para o jornal do Brasil entre 1967 - 1973, e em 3 de abril de 1971 publicou o texto "De natura florum". O título se deve à tradição de classificar a fauna e a flora com nomes latinos.

Nessa obra somos levamos a uma confissão amorosa de Clarice Lispector pelas flores, de um jeito doce e alegre. Se pode dizer que atua como um herbário em verso, são 25 verbetes botânicos - em que os 5 primeiros falam sobre o processo de floração, e os demais, sobre espécies de flores -, que exibem as características de cada flor citada, em que elas assumem formas até humanas. Há um encantamento à primeira vista, que ainda cresce posteriormente. 

As ilustrações são de Elena Odiozola, artista espanhola, que segue na ideia de trazer elementos humanos para as flores. Ela exibe lindos traçados que compõe cada flor como se fossem pessoas, com personalidades e estilos próprios. E conforme Clarice se debruça à desbravar essa personalidade através da linguagem poética, Elena se compromete a trazer vida para este olhar, conseguindo expressar não apenas formas compatíveis, como também elementos característicos. O que me encanta é como esses elementos brincam entre si em meio a narrativa escrita, sendo atribuidos sentidos, formas e o principal, pétalas em cada um deles. 

Um dos verbetes que mais gostei foi sobre as "tulipas", em que a autora diz que ela 1é' apenas em bando. Também sobre a "dama da noite", sinto que ela expressou tudinho o que a flor é, suas características bioológicas, sem fugir a magia (na verdade, sua realidade já é a própria!). Achei um encanto só ela dizer que as "margaridas" são alegres como brincadeira de criança - aqui a ilustradora foi genial também! Há alguns que apresentam figuras masculinas, como a "estrelícia" - que se tem crista de galo, ou a "palma", por não ter perfume. 

Se pode dizer que o livro é uma nos intruduz ao tipo de escrita e estilo de Clarice, essa sua familiaridade íntima com o texto. 


~*~


Q U O T E S :

"Dama-da-noite

Tem perfume de lua cheia.

É fantasmagórica e um pouco assustadora: só sai à noite, com seu cheiro embriagador, misterioso, silente. É também das esquinas desertas e em trevas, dos jardins de casas de luzes apagadas e janelas fechadas. É perigosa."


"Estrelícia

É masculina por excelência, Tem uma agressividade de amor e de sadio orgulho. Parece ter crista de galo e, como o galo, tem o seu canto, só que não espera pela aurora

- quando se a vê realmente, ela dá o seu grito visual de saudação ao mundo, que este é sempre nascente e portanto sempre está em aurora."


"Tulipa

Só é tulipa quando em largo campo coberto delas, como na Holanda. Uma única tulipa simplesmente não é."


"Margarida

É uma flor alegrezinha. É simples: só tem uma camada de pétalas.

Seu centro amarelo é uma brincadeira infantil."


"Palma

Não tem perfume.

Ela se dá altivamente - pois é altiva - em forma e cor.

É francamente masculina."


"Jasmim

É dos namorados: eles andam de mãos dadas balançando os braços, e se dão beijinhos suaves, eu diria ao som odorante do jasmim."


"Vitória-régia

No Jardim Botânico do Rio há enormes, até quase dois metros de diâmetro. Aquáticas, lindas de morrer. Elas são o Brasil grande. Evoluentes: no primeiro dia brancas, depois rosadas ou mesmo avermelhadas. Espalham grande tranquilidade. A um tempo majestosas e simples. Apesar de viverem no nível das águas, elas dão sombra."








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