Chá de Letras #90

 "A Cachorra" - Pilar Quintana

O que a falta de escolha faz com a mulher quando decidem por ela. Um livro incômodo.


Damaris é cidadã simples, forte e que possui uma bagagem de sentimentos profundos e enevoados - mesmo sem se sentir assim, ou entender que há forma de expressar. Ela vive na Colômbia, em um povoado costeiro e turístico. Criada pelos tios por ter perdido a mãe muito cedo, Damaris ainda carrega o trauma de ter assistido a uma tragédia e perda quando criança. Também casou cedo, com Rogerio, e apesar da pouca idade, não demorou muito para que começassem as cobranças por filhos ao redor. E eles até tentaram, mas nada de chegar. Preocupados, o casal não desistia, desde fórmulas médicas até simpatias, tudo era cabível naquele cenário e para a família que seguia cobrando. Até que a falta de esperança tomou o lugar do amor, a decepção e rotina tornaram-se aliados do casal que então se afastava; começaram a dormir separados e a nem se falar durante o dia, apesar de ainda serem casados no papel, a distância pessoal era nítida e muito presente.

Certo dia Damaris resolveu adotar uma cachorrinha que estavam doando - até porque, de acordo com um tio, já estava chegando na idade de secar... -, pequenina e sensível, sabia que a cachorrinha lhe custaria trabalho. Ao aparecer em casa o marido logo deixou claro sua ausência na responsabilidade de criar aquele ser; e ele tinha três grandes cachorros - que para ele mais serviam de proteção, sem amor. A cachorrinha, batizada de Chirli, ganha todo o afeto de Damaris, como uma filha. Mas um dia, ela foge, deixando a mulher atordoada. Quando retorna depois de um longo período, Damaris, já sem esperanças, a trata com ainda mais mimos, até ela fugir novamente.

A partir dai o enredo se torna sombrio. Até que ponto Damaris se enxerga como mãe ou se enxerga na cachorra. O amor sendo substituido pela raiva, a generosidade pela inveja... Até onde a opinião alheia molda como ela deve enxergar e esperar de si mesma. 


Confesso que o que me ligou a história foi querer saber o que acontecia com a cachorra, por mais que a capa seja um pouco explícita. Devorei a leitura com o coração na mão e o final veio brutal, como um soco no estômago. Para além do cenário vívido aqui, se questiona o que se espera de uma mulher, a busca por seu "papel social" e como isso gera uma visão distorcida de autocobrança, autosabotagem, até explodir. E sua explosão foi desumana, li essa parte tampando os olhos.

Recomendo para os fortes e, para aqueles que hoje, ainda acreditam que discutir os direitos básicos da mulher não é mais necessário. 


~*~


Q U O T E S :

"Damaris pensou que eles certamente amavam a cachorra, já que também não tinham filhos, e ela se perguntou se era isso que os mantinha juntos."

"⁠Ela queria fugir, se perder, não dizer nada a ninguém e ser engolida pela selva. Começou a correr, tropeçou, caiu, se levantou e correu de novo."





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